quarta-feira, 17 de março de 2010

SAUDADE - José Antônio Oliveira de Resende

Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre… Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro… casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite… tudo sobre a mesa.
Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança… Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam…. era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade…
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, t ambém ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos… até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail… Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!… – ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite….
Que saudade do compadre e da comadre!

(Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei)

12 comentários:

  1. Oi Kyria,
    Adorei este texto, pois eu também vivenciei um pouco dessa época de visitas. Nossa! como era bom. E hoje é essa realidade, pouco se recebe as pessoas em casa. Lembro que a minha casa só vivia de portão aberto e as pessoas iam entrando sem avisar (e nunca entrou um ladrão)... mas hoje é diferente.
    Adorei a imagem, se você tivesse postado antes, eu teria levado pra a minha postagem de canecas (rssss.).
    Obrigada pela visita, que pena que não tirou a foto da caneca que comprou pra presente. Sabe, eu tiro foto de tudo (ou quase tudo), depois eu fico enviando pros amigos e eles me mandam outras. Se quiser trocar "figurinhas" comigo, vou adorar (he,he,he).
    Meu email: estelasiq@yahoo.com.br.
    Bjs.

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  2. Oi Kyria!
    como anda a vida, tudo bem?
    É uma pena que as pessoas hoje pouco se visitam, é tão bacana sentar no aconchego do lar com familiares, amigos ...
    Sabado passado fomos visitar amigos nossos, estava tão booooommmm, uma delícia!
    grande bjk

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  3. Kyria, querida, nem imagina como adorei sua reflexão lá no blog, concordo plenamente contigo... E quanto a este tema das visitas, entre amigos e familiares, realmente a época é outra e isso raramente acontece, uma pena. Minha família também foi muito adepta desta prática, mas as novas gerações perderam este vínculo, esta forma de querer demonstrar o bem com a presença física. Ainda bem que ficaram resquícios por aqui e sempre que posso, agendo com algum amigo ou parente um encontro, mas só daqueles que demonstram abertura para tal, sabe como é, rsrsrs
    Um grande beijo e como sempre, obrigada por estar sempre presente entre nós!!!

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  4. Do tempo em que se valorizavam relações que hoje se completam por outros meios. As pessoas casam pela net sem se conhecer, trocam informações em redes virtuais que nao sabem com quem estão falando e por aí vai. O negócio é sentar e tomar um cafézinho em boa companhia... obrigado pela visita e super beijo!

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  5. Saudades eu estava de suas visitas e sempre boas palavras e como tudo nesta vida importante na dose certa ela a saudades pode até revigorar e tornar tudo mais interessante, fiquei feliz com sua visita e quero te deixar um grande beijo e abraço em todos.

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  6. Walkyria Gianna, que delícia de post.
    Adorei a foto da broa sobre a mesa, a caneca de café com leite... Êta saudade de Minas Gerais... onde fui criada cercada de muita gente.
    Vivi essa saudável e inesquecível experiência inúmeras vêzes, ao redor de familiares e conhecidos. Tudo muito simples, mas acolhedor.
    Não precisava de nenhum recurso futurista, os que dispomos, mas só o calor humano e uma vida simples do campo, mas, sobretudo, feliz.
    Estou até sentindo o cheiro desse café gostoso, vindo lá daquela mesa comprida da cozinha, com fogão de lenha, broas de milho, queijos de minas, biscoitos de nata, leite colhido do curral, compotas de doces do pomar em calda, aipim de desmanchar na boca, frutas frescas, linguiça frita no pão quentinho, ah, que maravilha, ... e uma prosa à perder de vista... e aquele cheiro de terra molhada e raízes das plantas e árvores ao cair da chuva. Tudo mágico, que nos traz um saudosismo grande do tipo : "Eu era feliz e não sabia"!

    Amei esse texto.

    Beijos mil

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  7. Acredite que esse espírito ainda existe! pouco mas existe..pelo menos na aldeia transmontana (Portugal) de meus pais...lá, mal se entra em casa de alguém (sem avisar claro) coloca-se logo uma toalha na mesa e se coloca comida...porque português que é português oferece sempre bebida e comida :)
    "pão e vinho sobre a mesa...é uma casa portuguesa, com certeza":)

    Mas não sei se por isso, mas adoro receber, ter a casa cheia..não só das pessoas, mas também dos risos , das conversas animadas e empolgadas...
    ou seja...conviver, viver!

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  8. Olá amiga Kyria,

    Vim visitá-la aqui, neste seu cantinho tão acolhedor e belo.

    Esse testo foi muitíssimo bem escolhido e revela bem a falta de comunicação e de altruísmo das pessoas hoje em dia.
    Triste mesmo, demais.

    Olhe! Eu hoje mesmo vou ter visitas, a minha irmã e cunhado, Vou fazer um prato muito especial e tenho que começar já :))))

    Eu recebo sim e com muito amor.
    Visite-me na minha outra morada, NA CASA DO RAU.

    Beijinhos

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  9. KKKKKKKKKKKK! Você me enche de alegria, Kyria!

    Adorei,adorei!

    Lindo poema! É muita honra para mim. Não mereço... :) Vou ler mil vezes.

    Beijooooooooo.

    Pedro Antônio

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  10. Maria Lúcia Azevedo Ramos20 de março de 2010 00:05:00 BRT

    Lindo! Singelo, simples, e de uma ternura imensurável. E, como como bem lembrado, são as nossas raízes portuguesas que ainda predominavam antes dos e-mails, dos blogs, do dvd, da televisão...¨o tempo passou e me formei em solidãö-tive bons professores¨...que pena! Como boa portuguesa - neta, filha,e com dupla nacionalidade- penso em como deixamos para trás o ¨pão e vinho sobre a mesa¨... para receber os amigos; e os trocamos por instrumentos frios, e perversos, às vezes,que cada vez mais nos isolam, nos afastam das pessoas, nos tornam solitários e amigos imaginários e secretos uns dos outros. Amigos pelo computador, pelos e-mails carinhosos, e divertidos, e literários, e que apenas denotam a imensurável necessidade de um convívio amigável, humano, carente de atenção e carimho,nem que seja pelo computador,das pessoas...hoje ninguém visita ninguém; ninguém abraça ninguém,( tem até abraço poe e-mail),ninguém recebe mais em sua casa os amigos - como diz o texto...é uma pena! Que tal em vez de e-mails, telefonemas...em vez de blogs falando apenas de si mesmo, falar pessoalmente com os amigos, convidar para um bate-papo descompromissado e leve, gostoso, humano... vale um insihgt!
    Adorei o texto! Me deu oportunidade de refletir mais sobre a solidão dos e-mails e dos blogs...falta neles, sem dúvida, calor humano, que só se tem com o toque, com a presença do outro, com olho no olho...insubstituível, ainda, graças a deus!

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  11. Oi, Kyria!!

    Amanhã o Blog'Arte vai fazer sua primeira PROMÔ!!!
    Não deixa de passar por lá e participar!!!

    Beijins,
    Andrea Guim

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  12. Lendo esse belo texto, fico pensando na minha infância querida que não volta mais. Parabéns.
    Agobar, nascido em 1940

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Obrigada por deixar o seu jeito.